quarta-feira, 20 de junho de 2012

UM IPUENSE PESQUISADOR DO CANGAÇO...

 

Escritor, poeta e pesquidasor, Anastácio Pedro de Mello Lima, mais conhecido por seus amigos e conterrâneos de Ipu como “Pitote” é considerado um grande conhecedor da história do cangaço. Um apaixonado pelas histórias do sertão e de seu povo. Desde muito cedo, já alimentava a vontade de trilhar novos caminhos e novas culturas mundo a fora. Assim como os demais nordestinos que se acostumaram a “carregar a sua casa na própria corcunda”em busca de dias melhores o cearense Anastácio Pedro conviveu também com o sofrimento, as angústias, o medo e a insegurança no sul do país, no entanto conseguiu vencer as adversidades da vida por meio dos estudos e da imensa vontade de viver.

Intrépido, idealista, aventureiro sempre cultivou desde de menino o amor pela leitura que segundo o mesmo veio da influência de sua mãe Antõnia Melo Lisboa (Dona Toinha) que lia e recitava oralmente as histórias e narrativas de Lampião no alpendre do casarão do sítio São Mateus em Ipu. Definido então como “pesquisador espotaneo”, sem as amarras acadêmicas dos teóricos sociais, escreve com maestria e criticidade, sem se deixar levar pela ótica dominante e tradicional da história. É também integrante de honra do grupo de andarilhos e aventureiros de Ipu “CALANGOS DA TRILHA”, (fundado pelo seu sobrinho, historiador e praticante de caminhadas e trilhas (trekking) pelo sertão, prof. Petronio Lima) e um grande intusiasta da cultura popular do Cordel.

Atualmente aposentado pela empresa nacional da Petrobrás, residente em Aracajú, (e com mais tempo disponível...), dedica-se com mais afinco as pesquisas e memórias da vida de Lampião, como também aos estudos da Arqueologia, uma área que hoje caminha muito próxima a história social.

É provável que Anastácio Pedro (tio Pitote) virá ao Ipu agora nas férias de Julho para rever alguns amigos e parentes, bem como realizar algumas pesquisas e trilhas pela serra e sertão de Ipu. Sem dúvida, comparecerá a uma das principais palestras do Simpósio de Ipu sobre a arte do cangaço ( A Estética do Cangaço), tema bastante instigante que estará sendo relizado entre os primeiros dias de julho. No mais, esperamos com ansiedade a sua honrosa presença.

terça-feira, 19 de junho de 2012

JORGE AMADO - O ROMANCISTA DO POVO

Se vivo fosse Jorge Amado completaria 100 anos de vida. Além das homenagens ao escritor e da reedição da novela Gabriela, as memórias do escritor baiano se estende à política - ele que foi um comunista atípico para o tempo, mas que teve uma trajetória dentro do PCB elegendo-se Deputado Federal em 1945 para a Assembléia Constituinte daquele ano, numa das raras vezes em que o partido saiu da clandestinidade.

 Na campanha, chegou a visitar o Ceará. Conta-se que num comício em Itapajé, teve que sair às pressas da cidade, posto que a reunião comunista foi desbaratada à base de pedradas por ferrenhos combatentes religiosos, inclusive protestantes.

Assumiu o mandato no ano seguinte, e algumas de suas propostas, como a que instituiu a liberdade de culto religioso, foram aprovadas e viraram leis. Alguns anos depois, porém, o partido foi colocado na clandestinidade e Jorge Amado teve o mandato cassado. A imagem mostra cartaz produzido para a sua campanha.
 Fonte: Café História

terça-feira, 12 de junho de 2012

PADRE CAUBY: RITOS, CELEBRAÇÕES E CAMINHADAS

Foto pertencente ao acervo do Prof. Francisco de Assis Martins. (Prof. Mello)

Dentre as atividades realizadas pelo então Assistente Eclesiástico no interior cearense entre os anos de 1940 estava o de promover o chamado “passeio circulista” nas ruas da cidade. Muitas vezes motivados pelo clima político, nas inaugurações festivas ou atos cívicos, o papel ritualístico e doutrinário do Círculo de Trabalhadores e Operários era o de propiciar o lazer e a disciplina do trabalhador local.

Os desfiles eram apontados nos jornais de influência católica como o “Correio da Semana” e “A Fortaleza” como sendo um ato de “Fraternização do ideal circulista”. Em meus estudos nos periódicos e “livro de tombos” das paróquias de Ipu e cidades vizinhas há sempre referências ao enérgico dirigente circulista Padre Cauby.

Padre Cauby, tendo então atuado em Ipu entre os anos de 1942 a 1947 foi o grande rearticulador do Círculo Operário Católico, bem como o pioneiro da prática da caminhada circulista na cidade. O mesmo unia a necessidade de doutrinar, moralizar e instruir o “sujeito operario” por meio do ritual dos desfiles católicos com o prazer de participar ativamente das caminhadas.

Por sua postura dinâmica e atlética de um “ex-militar”, tinha o hábito de se exercitar frequentemente e de fazer de vez em quando trilhas longe da cidade. Há relatos de suas caminhadas na famosa trilha da ladeira de São Sebastião, conhecido popularmente como “Trilha da Lasca da Velha.” Mas também cultivava outro hábito interessante, o de raspar o rabo de seu cavalo e sair galopando pelas ruas de Ipu!!!

No que se refere aos desfiles do Círculo Operário de Ipu havia não somente um grande número de "trabalhadores católicos" da linha de frente circulista, bem como algumas senhoras pertencente a “Ala Feminina”, como também figuras de destaque no meio social religioso como “Joaquim Lima”, “Chagas Pinto”, “Abdoral Timbó”, “César Tavares” dentre outros...

Nesse contexto, a prática da caminhada católica e circulista de Padre Cauby pode assim ser definida como uma das primeiras manifestações de seu “espírito avançado” para época. Até então os grandes desfiles do circulismo cearense eram mais voltados para a capital. O interior ainda se constituía nas primeiras décadas dos anos de 1920-30 como “um lugar de pouca importância” na constituição do circulismo católico.

No entanto, a partir da influência das idéias consideradas nocivas a “civilidade” e aos “bons costumes religiosos” (1940 em diante )a coisa começa a ganhar novos rumos e a figura do Assistente Eclesiástico no meio circulista interiorano passa a ser mais enérgico e atuante. Era preciso “civilizar os costumes” e preparar os espíritos através dos desfiles e até mesmo do simples hábito de andar na cidade.

Prof. Petrônio Lima

segunda-feira, 11 de junho de 2012

"CIDADE DE MEU ANDAR" - MARIO QUINTANA

Centro de Ipu. Foto do acervo do Prof. Francisco de Assis Martins (Prof. Mello)

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse 
A anatomia de um corpo...

(...) Sinto uma dor infinita
 Das ruas (...)
 Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita, 
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

 Que faz com que o teu ar
 Pareça mais um olhar
 Suave mistério amoroso,
 Cidade de meu andar (Mario Quintana – O Mapa)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

IV SIMPÓSIO DE IPU - PROGRAMAÇÃO

IV SIMPÓSIO DE IPU – PROGRAMAÇÃO

"Novos olhares da pluralidade: Desenvolvimento e Cultura" Horário

Programação Dia 03 de julho de 2012 09:00 – 17:00 Credenciamento Local: Centro Vocacional de Ipu - CVT 18:00 – 19:00 Ateliê Temático Cine SESC Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 19:00 – 22:00 Conferência de Abertura "Novos Olhares das pluralidades: cultura e literatura" Antônio Colaço Martins - Magnífico Reitor (UVA) Ana Miranda - poetiza e romancista brasileira Mediador: Dennis Melo - Doutorando em História e Professor (UVA) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 22:30 Apresentação Cultural Negra Criola - grupo teatral de Fortaleza Local: Praça de Iracema Horário Programação

Dia 04 de julho de 2012 08:30 – 12:00 Mesa Redonda “Medicina, coração, educação e desenvolvimento que transformam o nordeste” Dr. João Martins Sousa Torres (cardiologista) Esp. em Medicina José Evangelista Filho (UFMA) Dr. em Educação Edvar Costa Rodrigues (UVA) Mediador: Prof. Ms. em História Social Alênio Carlos Noronha (UVA) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 12:00 – 14:00 Intervalo para almoço

14:00 – 17:00 Caminhada “O caminhar na cidade como prática cultural” Prof. Esp. em História Petrônio Lima (IVA) Prof. Esp. em História Augusto Ridlav (UVA) 18:00 – 19:00 Ateliê Temático Cine SESC Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 19:00 – 22:00 Mesa Redonda “Negros e índios e o movimento de resistência das suas pluralidades” Prof. Dr. Babi Fonteles - Coordenador dos Cursos de Magistério Indígena Superior pela UFC Prof. Ms. em História Paulo Henrique de Sousa de Martins (UFF/UVA) Representante da comunidade indígena Mediador: Prof. Ms. em Filosofia Giovane Paulino de Oliveira (UVA) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 22:30 Quadrilha junina – Arraiá de Iracema “Cante a terra que é sua que dança o sertão que é meu. Puxa o fole Luiz Gonzaga que o João é seu.” Local: Quadra da E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão Horário Programação

Dia 05 de julho de 2012 08:30 – 12:00 Mesa Redonda: “Restauração, patrimônio e espaço urbano: impactos nas pluralidades” Prof. Ms. Alênio Carlos Noronha (UVA) Sérgio Trópia (Restaurador de Ouro Perto) Prof. Ms. História Gelson Monteiro (UFF) Mediador: Prof. Dr. Pedro Fernandes (UFRN) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 12:00 – 14:00 Intervalo para almoço

14:00 – 17:00 Minicursos Local: Escola de Ensino Médio Auton Aragão 18:00 – 19:00 Ateliê Temático Cine SESC Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 19:00 – 22:00 Palestra: “Cultura popular: as lideranças e a organização da sociedade civil” Prof. Dr. em Sociologia Osvald Barroso (UFC) Profa. Dra. em Sociologia Ana Cristina Farias de Carvalho (URCA) Edmilson Providência - Representante da cultura popular Mediadora: Profa. Ms. Milene Portela (UVA) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 22:30 – 00:30 Sarau de literatura Prof. Ms. em História Raimundo Alves de Araújo (UECE) Prof. Esp. em Literatura Manfred Rommel (UVA) Valdemar Ferreira de Carvalho Neto Terceiro (UVA) Local: Casa de Cultura Horário Programação

Dia 06 de julho de 2012 08:30 – 12:00 Mesa Redonda “A estética do cangaço, lampião ou lampiões: tudo isto são questões de observação, pluralidades e evolução no Nordeste” Prof. Ms. em Filosofia Giovane Paulino de Oliveira (UVA) Prof. Ms. em Pedagogia, poeta e historiador Luciano Bonfim (UVA) Prof. Ms. em História Raimundo Alves de Araújo (UECE) Mediador: Prof. Esp. em História Francisco Petrônio Lima (UVA) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 12:00 – 14:00 Intervalo para almoço

14:00 – 17:00 Minicursos Local: Escola de Ensino Médio Auton Aragão 19:00 – 22:00 Mesa Redonda “Antropologia do desenvolvimento e identidade regional” Prof. Dr. em Antropologia Marques Biancucchi (UFC) Prof. Dr. em História Eriberto (UFPE) Mediador: Prof. Dr. em Educação Edvar Costa Rodrigues (UVA) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 00:00h Café Filosófico Local: Casa de Cultura Horário Programação

Dia 07 de julho de 2012 08:30 – 12:00 Mesa Redonda “História: local que transforma as pluralidades” Prof. Dr. Dennis Melo (UVA) Prof. Ms. Antônio Iramar Miranda Barros (INTA) Prof. Dr. em História Tiago Alves Tavares (INTA) Mediador: Prof. Dr. em História Antônio Vitorino Farias Filho (INTA) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 12:00 – 14:00 Intervalo para almoço

14:00 – 17:00 Minicursos Local: Escola de Ensino Médio Auton Aragão 18:00 – 19:00 Ateliê Temático Cine SESC Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 19:00 – 22:00 Conferência de Encerramento "Pluralidades, literatura e memória" Prof. Dr. em História Antônio Jorge de Siqueira (UFPE) Prof. Dr. em História Carlos Augusto Pereira dos Santos (UFPE/UVA) Prof. Dr. em História Antônio Vitorino Farias Filho (INTA) Mediador: Prof. Dr. Pedro Fernandes Queiroz (UVA) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 22:30 Festejos Local: Bica de Ipu Horário

TRILHAS : PROGRAMAÇÃO  Dia 08 de julho 09:00

CALANGOS TREKKING: Grupo de Trilhas e Caminhadas de Ipu

Professores: Samuel Nobre ( Prof. de Educação Física, guia de trilhas e praticante de Rapel e outros esportes de aventuras.Integrante do Calangos Trekking de Ipu)

Petronio Lima: Professor e pesquisador na área de História Social. Integrante do Clube Calangos Trekking de Ipu.

João Freire: professor de história e músico

LOCAL:“Ladeira São Sebastião” (Trilha da Lasca da Velha)

 Saída: Praça Iracema

quinta-feira, 31 de maio de 2012

MICHEL DE CERTEAU - O "CAMINHAR" NA CIDADE

"Os passos tecem lugares, moldam espaços, esboçam discursos sobre a cidade” . É o que Michel de Certeau defende em seu texto “Caminhando na Cidade” como sendo um “ato de enunciação”. Com base em suas afirmações, o autor compara o ato pedestre, de andar pela cidade, ao falar.

Assim, “o caminhar é uma enunciação pois o pedestre se apropria do sistema topográfico (como nos apropriamos da língua), faz do lugar um espaço (como fazemos da língua um som) e se relaciona com a cidade através dos seus movimentos” (como nos relacionamos com o outro através da língua).

Para Michel de Certeau a cidade e suas diferentes interpretações é percebido como uma linguagem textual que se dar na prática do caminhar nas ruas. Daí o mesmo afirmar que uma das formas de tentar perceber a cidade é caminhar por ela (CERTEAU, 1994).

Os gestos do caminhar urbano muitas vezes passam desapercebidos pelo olhar dos sujeitos comuns, pois “cada movimento é único” e traduz algo a ser observado somente pela ótica daqueles que subvertem a ordem do caminhar frenético da vida agitada.

Muito embora a errancia do caminhar seja uma prática recorrente no cotidiano das cidades é impossível descrever os detalhes do trajeto de um caminhante urbano, por quais caminhos passou, que gestos fez ao descer o meio-fio, aonde seus pés pararam para esperar o sinal abrir. “O caminho que a pessoa percorre jamais será o mesmo”.No instante só que ela acaba de dar um passo, não mais conseguirá reproduzi-lo.

É o que o historiador Michel de Certeau define como uso de uma retórica da caminhada. A arte de moldar percursos, que implica estilos e usos. O estilo conota o que é de cada um, o singular. O uso, por sua vez, remete a uma norma, o que é normalmente feito. “Eles se cruzam para formar um estilo do uso, uma maneira de ser e maneira de fazer.” (CERTEAU. 2004:180).

A retórica ambulante para Certeau é a adaptação linguística e a caminhada do pedestre, é a adequação linguística ao contexto espacial onde o caminhante se encontra. A maneira de fazer nesse caso, seria o falar e caminhar. Método logicamente falando. Certeau prega a análise das maneiras de apropriação do espaço, que corresponde à manipulação de elementos de uma ordem construtora, a transitoriedade e os arranjos linguísticos feitos para isso.

Para ele os movimentos lingüísticos do andar na cidade é mostrado nas práticas sociais, ou seja, a medida em que o espaço é considerado específico, por uma linguagem especifíca acaba sendo isolado. Os movimentos nos lugares promovem ausência se continuidades no espaço histórico constituído. No sentido de perceber os elementos históricos através da análise do que é dito, nos lugares comuns podemos ver uma historia fragmentaria, que se encaixam nas práticas sociais.

OBS: Historiador francês, autor de inúmeras obras fundamentais sobre a religião, a história e o misticismo dos séculos XVI e XVII. “Caminhadas pela cidade” faz parte do caítulo 7 do livro “A invenção do Cotidiano. Certeau neste capítulo usa o exemplo do World Trade Center para mensurar a supremacia econômica do lugar e a rotina de vida da cidade, a sua constante modernização e o desprezo pelo passado, ele usa a analogia de estar no alto do prédio e dominar o poder.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Arte do fazer. Petrópolis. Vozes, 1994.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

O CAMINHO DOS FILÓSOFOS: ARTE DO CAMINHAR

Foto ilustrativa da arte da caminhada "Trekking" no Brasil

 Dentre as várias escolas da Antiguidade, porém, existe uma que se destaca não só pela estranheza do nome como pelo tipo de ensino incomum: o método peripatético, utilizado por Aristóteles no Liceu. Isso mesmo: o autor da Metafísica não passava de um peripatético. O exótico adjetivo se deve ao fato de ele "dar suas aulas caminhando" pelo peripatos, uma alameda situada nos jardins do Liceu. As andanças eram feitas pelas manhãs, e nelas mestre e discípulos discutiam as questões filosóficas mais profundas ligadas à metafísica, à física e à lógica.

Alguns séculos depois, o termo se desprendeu dos jardins do Liceu e passou a servir de designação a todo aquele que tem o hábito de ensinar andando. Surge assim o mais famoso peripatético de todos os tempos: Jesus Cristo. As pregações do filho de Maria eram feitas em longas caminhadas com os discípulos, que por sua vez levaram adiante seu modo de ensinar. E foi assim, através de suas caminhadas e pregações, que Jesus ajudou a combater a exploração do aparentemente invencível Império de Roma.

Dando um longo passo da época de Cristo até o século XVIII, chega-se a um dos grandes nomes da filosofia moderna: Emmanuel Kant. O filósofo, nascido na cidade de Königsberg - de onde nunca sairia -, fora capaz de pensar coisas que revolucionaram o mundo da filosofia. Apesar da mente inquieta, a vida de Kant caracterizava-se por uma rotina inquebrantável. Segundo se conta, todos os dias, às três e meia da tarde em ponto, ele saía de sua casa para seu passeio vespertino na alameda de tílias que hoje se chama Passeio do Filósofo.

A pontualidade era tanta que os vizinhos acertavam seus relógios pela hora que Kant aparecia na porta de casa para iniciar sua caminhada (reza a lenda que apenas um único dia o filósofo não caminhou: quando leu Rousseau, sua perplexidade foi tamanha que violou seu hábito). Kant não era um peripatético, posto que em seus passeios não dava lições, mas quem garante que não teria nascido dessas tardes de exercício a fonte de inspiração para os juízos sintéticos a priori, o imperativo categórico e outras de suas grandes descobertas filosóficas?

Ainda na senda da filosofia, apesar dos pensamentos distintos entre o plácido filósofo de Könninsberg e o possesso pensador do eterno-retorno, Friedrich Nietzsche, existe um ponto de encontro: o caminhar. Ambos cultivavam esse saudável hábito, mas o autor de Assim Falava Zaratustra - talvez pelo seu gênio impetuoso – fazia andanças bem mais intensas que as kantianas. Durante sua vida nômade, que lhe valeu a alcunha de “filósofo errante”, independente dos lugares onde se fixava, Nietzsche percorria diariamente longas distâncias por cerca de 6 a 8 horas e depois se entregava a uma escrita incessante na qual colocava as ideias surgidas nesse processo.

Não deve ser por acaso que seus textos são repletos de alusões a locomoção, a paisagens e a fenômenos climáticos. A consolidação máxima de seu processo de pensar-caminhar fica clara em seu mais célebre livro, que narra a trajetória de um homem que, aos trinta anos, deixa sua casa e isola-se nas montanhas por 10 anos. Após esse período, desce de lá e busca disseminar suas ideias pelo mundo afora. As quatro partes em que o livro é dividido foram escritas em diferentes lugares e épocas. Foi caminhando que as ideias para escrever Zaratustra brotaram em Nietzsche.

Para ele, andar era imprescindível para pensar. Tanto assim que no livro A Gaia Ciênciaencontra-se o aforismo: "Não escrevo apenas com a mão: o pé também quer sempre participar". Veredas literárias Uma trilha que por vezes se cruza e por vezes se afasta da filosofia é a literatura. O caminhar nela também se faz bastante presente.Em seu livro de estreia, O diário de um mago, o escritor Paulo Coelho relata sua experiência ao trilhar o Caminho de Santiago de Compostela.

No texto, o mago descreve a importância de realizar tal jornada: “A viagem, que antes era uma tortura porque você queria apenas chegar, agora começa a transformar-se em prazer, no prazer da busca e da aventura. Com isto você está alimentando uma coisa muito importante, que são seus sonhos”. Apesar de tal caminho já ser rota de peregrinação desde o século IX, o livro fez tanto sucesso que o trajeto popularizou-se ainda mais e hoje milhares de pessoas se mandam para a Península Ibérica a fim de trilhá-lo. Os motivos da peregrinação podem ser de natureza religiosa, mística, pessoal ou simplesmente para buscar emoções.

Outro famoso caminhante da literatura é Sidarta, de Herman Hesse. O príncipe de Sakyas, após largar todos os bens materiais de que era provido no palácio de seu pai e sair caminhando pelo Oriente, passa por diversas provações até que obtém a redenção, liberta-se de todos desejos e torna-se Buda. Na contramão desse caminho, desejando sobretudo o encontro com o Diabo, está o desbravador das tortuosas trilhas das Gerais, Riobaldo, protagonista da obra-prima de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. Todo o livro acontece no caminhar, nas andanças, no encontro e desencontro dos rumos.

É quando o professor Riobaldo se larga pelas veredas do sertão. Na travessia, descobre a paixão proibida por Diadorim, o amor por Otacília e a jagunçagem. Até de nome muda: Tatarana, devido à boa pontaria, e depois vira Urutu-Branco quando se torna líder do bando. Mas a dúvida crucial do romance permanece: vendeu ou não sua alma ao demo? E pergunta ao seu compadre: “O senhor acha que a minha alma eu vendi, pactário?!.” Ele mesmo responde: “O Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.”

 A caminho do mar...

Outro conhecido adepto de caminhadas é o muso sexagenário, Chico Buarque de Holanda, que usa o trajeto do final do Leblon até o Arpoador como fonte de inspiração para suas composições, livros e reflexão, pois, como ele mesmo declarou em entrevista: “eu também só sei pensar andando. Se você ficar parado, não consegue pensar. Andar eu recomendo para tudo.

Se você tem qualquer problema, dê uma caminhada – porque ajuda, inclusive, a ter ideias. Se a música ficou emperrada ou se a ideia para um livro não vem, a melhor coisa a fazer é dar uma bela caminhada. Fiquei três meses preso na cama. Eu não conseguia ter ideias. Só sonhava que andava. Foram três meses perdidos pela imobilidade”. E completa: “Associo o ato de andar ao ato de pensar, criar e compor”.

Fonte: Mariana Cruz (Blog Educação Pública)