segunda-feira, 11 de junho de 2012

"CIDADE DE MEU ANDAR" - MARIO QUINTANA

Centro de Ipu. Foto do acervo do Prof. Francisco de Assis Martins (Prof. Mello)

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse 
A anatomia de um corpo...

(...) Sinto uma dor infinita
 Das ruas (...)
 Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita, 
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

 Que faz com que o teu ar
 Pareça mais um olhar
 Suave mistério amoroso,
 Cidade de meu andar (Mario Quintana – O Mapa)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

IV SIMPÓSIO DE IPU - PROGRAMAÇÃO

IV SIMPÓSIO DE IPU – PROGRAMAÇÃO

"Novos olhares da pluralidade: Desenvolvimento e Cultura" Horário

Programação Dia 03 de julho de 2012 09:00 – 17:00 Credenciamento Local: Centro Vocacional de Ipu - CVT 18:00 – 19:00 Ateliê Temático Cine SESC Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 19:00 – 22:00 Conferência de Abertura "Novos Olhares das pluralidades: cultura e literatura" Antônio Colaço Martins - Magnífico Reitor (UVA) Ana Miranda - poetiza e romancista brasileira Mediador: Dennis Melo - Doutorando em História e Professor (UVA) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 22:30 Apresentação Cultural Negra Criola - grupo teatral de Fortaleza Local: Praça de Iracema Horário Programação

Dia 04 de julho de 2012 08:30 – 12:00 Mesa Redonda “Medicina, coração, educação e desenvolvimento que transformam o nordeste” Dr. João Martins Sousa Torres (cardiologista) Esp. em Medicina José Evangelista Filho (UFMA) Dr. em Educação Edvar Costa Rodrigues (UVA) Mediador: Prof. Ms. em História Social Alênio Carlos Noronha (UVA) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 12:00 – 14:00 Intervalo para almoço

14:00 – 17:00 Caminhada “O caminhar na cidade como prática cultural” Prof. Esp. em História Petrônio Lima (IVA) Prof. Esp. em História Augusto Ridlav (UVA) 18:00 – 19:00 Ateliê Temático Cine SESC Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 19:00 – 22:00 Mesa Redonda “Negros e índios e o movimento de resistência das suas pluralidades” Prof. Dr. Babi Fonteles - Coordenador dos Cursos de Magistério Indígena Superior pela UFC Prof. Ms. em História Paulo Henrique de Sousa de Martins (UFF/UVA) Representante da comunidade indígena Mediador: Prof. Ms. em Filosofia Giovane Paulino de Oliveira (UVA) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 22:30 Quadrilha junina – Arraiá de Iracema “Cante a terra que é sua que dança o sertão que é meu. Puxa o fole Luiz Gonzaga que o João é seu.” Local: Quadra da E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão Horário Programação

Dia 05 de julho de 2012 08:30 – 12:00 Mesa Redonda: “Restauração, patrimônio e espaço urbano: impactos nas pluralidades” Prof. Ms. Alênio Carlos Noronha (UVA) Sérgio Trópia (Restaurador de Ouro Perto) Prof. Ms. História Gelson Monteiro (UFF) Mediador: Prof. Dr. Pedro Fernandes (UFRN) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 12:00 – 14:00 Intervalo para almoço

14:00 – 17:00 Minicursos Local: Escola de Ensino Médio Auton Aragão 18:00 – 19:00 Ateliê Temático Cine SESC Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 19:00 – 22:00 Palestra: “Cultura popular: as lideranças e a organização da sociedade civil” Prof. Dr. em Sociologia Osvald Barroso (UFC) Profa. Dra. em Sociologia Ana Cristina Farias de Carvalho (URCA) Edmilson Providência - Representante da cultura popular Mediadora: Profa. Ms. Milene Portela (UVA) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 22:30 – 00:30 Sarau de literatura Prof. Ms. em História Raimundo Alves de Araújo (UECE) Prof. Esp. em Literatura Manfred Rommel (UVA) Valdemar Ferreira de Carvalho Neto Terceiro (UVA) Local: Casa de Cultura Horário Programação

Dia 06 de julho de 2012 08:30 – 12:00 Mesa Redonda “A estética do cangaço, lampião ou lampiões: tudo isto são questões de observação, pluralidades e evolução no Nordeste” Prof. Ms. em Filosofia Giovane Paulino de Oliveira (UVA) Prof. Ms. em Pedagogia, poeta e historiador Luciano Bonfim (UVA) Prof. Ms. em História Raimundo Alves de Araújo (UECE) Mediador: Prof. Esp. em História Francisco Petrônio Lima (UVA) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 12:00 – 14:00 Intervalo para almoço

14:00 – 17:00 Minicursos Local: Escola de Ensino Médio Auton Aragão 19:00 – 22:00 Mesa Redonda “Antropologia do desenvolvimento e identidade regional” Prof. Dr. em Antropologia Marques Biancucchi (UFC) Prof. Dr. em História Eriberto (UFPE) Mediador: Prof. Dr. em Educação Edvar Costa Rodrigues (UVA) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 00:00h Café Filosófico Local: Casa de Cultura Horário Programação

Dia 07 de julho de 2012 08:30 – 12:00 Mesa Redonda “História: local que transforma as pluralidades” Prof. Dr. Dennis Melo (UVA) Prof. Ms. Antônio Iramar Miranda Barros (INTA) Prof. Dr. em História Tiago Alves Tavares (INTA) Mediador: Prof. Dr. em História Antônio Vitorino Farias Filho (INTA) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 12:00 – 14:00 Intervalo para almoço

14:00 – 17:00 Minicursos Local: Escola de Ensino Médio Auton Aragão 18:00 – 19:00 Ateliê Temático Cine SESC Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 19:00 – 22:00 Conferência de Encerramento "Pluralidades, literatura e memória" Prof. Dr. em História Antônio Jorge de Siqueira (UFPE) Prof. Dr. em História Carlos Augusto Pereira dos Santos (UFPE/UVA) Prof. Dr. em História Antônio Vitorino Farias Filho (INTA) Mediador: Prof. Dr. Pedro Fernandes Queiroz (UVA) Local: E.E.E. Profissional Antônio Tarcísio Aragão 22:30 Festejos Local: Bica de Ipu Horário

TRILHAS : PROGRAMAÇÃO  Dia 08 de julho 09:00

CALANGOS TREKKING: Grupo de Trilhas e Caminhadas de Ipu

Professores: Samuel Nobre ( Prof. de Educação Física, guia de trilhas e praticante de Rapel e outros esportes de aventuras.Integrante do Calangos Trekking de Ipu)

Petronio Lima: Professor e pesquisador na área de História Social. Integrante do Clube Calangos Trekking de Ipu.

João Freire: professor de história e músico

LOCAL:“Ladeira São Sebastião” (Trilha da Lasca da Velha)

 Saída: Praça Iracema

quinta-feira, 31 de maio de 2012

MICHEL DE CERTEAU - O "CAMINHAR" NA CIDADE

"Os passos tecem lugares, moldam espaços, esboçam discursos sobre a cidade” . É o que Michel de Certeau defende em seu texto “Caminhando na Cidade” como sendo um “ato de enunciação”. Com base em suas afirmações, o autor compara o ato pedestre, de andar pela cidade, ao falar.

Assim, “o caminhar é uma enunciação pois o pedestre se apropria do sistema topográfico (como nos apropriamos da língua), faz do lugar um espaço (como fazemos da língua um som) e se relaciona com a cidade através dos seus movimentos” (como nos relacionamos com o outro através da língua).

Para Michel de Certeau a cidade e suas diferentes interpretações é percebido como uma linguagem textual que se dar na prática do caminhar nas ruas. Daí o mesmo afirmar que uma das formas de tentar perceber a cidade é caminhar por ela (CERTEAU, 1994).

Os gestos do caminhar urbano muitas vezes passam desapercebidos pelo olhar dos sujeitos comuns, pois “cada movimento é único” e traduz algo a ser observado somente pela ótica daqueles que subvertem a ordem do caminhar frenético da vida agitada.

Muito embora a errancia do caminhar seja uma prática recorrente no cotidiano das cidades é impossível descrever os detalhes do trajeto de um caminhante urbano, por quais caminhos passou, que gestos fez ao descer o meio-fio, aonde seus pés pararam para esperar o sinal abrir. “O caminho que a pessoa percorre jamais será o mesmo”.No instante só que ela acaba de dar um passo, não mais conseguirá reproduzi-lo.

É o que o historiador Michel de Certeau define como uso de uma retórica da caminhada. A arte de moldar percursos, que implica estilos e usos. O estilo conota o que é de cada um, o singular. O uso, por sua vez, remete a uma norma, o que é normalmente feito. “Eles se cruzam para formar um estilo do uso, uma maneira de ser e maneira de fazer.” (CERTEAU. 2004:180).

A retórica ambulante para Certeau é a adaptação linguística e a caminhada do pedestre, é a adequação linguística ao contexto espacial onde o caminhante se encontra. A maneira de fazer nesse caso, seria o falar e caminhar. Método logicamente falando. Certeau prega a análise das maneiras de apropriação do espaço, que corresponde à manipulação de elementos de uma ordem construtora, a transitoriedade e os arranjos linguísticos feitos para isso.

Para ele os movimentos lingüísticos do andar na cidade é mostrado nas práticas sociais, ou seja, a medida em que o espaço é considerado específico, por uma linguagem especifíca acaba sendo isolado. Os movimentos nos lugares promovem ausência se continuidades no espaço histórico constituído. No sentido de perceber os elementos históricos através da análise do que é dito, nos lugares comuns podemos ver uma historia fragmentaria, que se encaixam nas práticas sociais.

OBS: Historiador francês, autor de inúmeras obras fundamentais sobre a religião, a história e o misticismo dos séculos XVI e XVII. “Caminhadas pela cidade” faz parte do caítulo 7 do livro “A invenção do Cotidiano. Certeau neste capítulo usa o exemplo do World Trade Center para mensurar a supremacia econômica do lugar e a rotina de vida da cidade, a sua constante modernização e o desprezo pelo passado, ele usa a analogia de estar no alto do prédio e dominar o poder.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Arte do fazer. Petrópolis. Vozes, 1994.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

O CAMINHO DOS FILÓSOFOS: ARTE DO CAMINHAR

Foto ilustrativa da arte da caminhada "Trekking" no Brasil

 Dentre as várias escolas da Antiguidade, porém, existe uma que se destaca não só pela estranheza do nome como pelo tipo de ensino incomum: o método peripatético, utilizado por Aristóteles no Liceu. Isso mesmo: o autor da Metafísica não passava de um peripatético. O exótico adjetivo se deve ao fato de ele "dar suas aulas caminhando" pelo peripatos, uma alameda situada nos jardins do Liceu. As andanças eram feitas pelas manhãs, e nelas mestre e discípulos discutiam as questões filosóficas mais profundas ligadas à metafísica, à física e à lógica.

Alguns séculos depois, o termo se desprendeu dos jardins do Liceu e passou a servir de designação a todo aquele que tem o hábito de ensinar andando. Surge assim o mais famoso peripatético de todos os tempos: Jesus Cristo. As pregações do filho de Maria eram feitas em longas caminhadas com os discípulos, que por sua vez levaram adiante seu modo de ensinar. E foi assim, através de suas caminhadas e pregações, que Jesus ajudou a combater a exploração do aparentemente invencível Império de Roma.

Dando um longo passo da época de Cristo até o século XVIII, chega-se a um dos grandes nomes da filosofia moderna: Emmanuel Kant. O filósofo, nascido na cidade de Königsberg - de onde nunca sairia -, fora capaz de pensar coisas que revolucionaram o mundo da filosofia. Apesar da mente inquieta, a vida de Kant caracterizava-se por uma rotina inquebrantável. Segundo se conta, todos os dias, às três e meia da tarde em ponto, ele saía de sua casa para seu passeio vespertino na alameda de tílias que hoje se chama Passeio do Filósofo.

A pontualidade era tanta que os vizinhos acertavam seus relógios pela hora que Kant aparecia na porta de casa para iniciar sua caminhada (reza a lenda que apenas um único dia o filósofo não caminhou: quando leu Rousseau, sua perplexidade foi tamanha que violou seu hábito). Kant não era um peripatético, posto que em seus passeios não dava lições, mas quem garante que não teria nascido dessas tardes de exercício a fonte de inspiração para os juízos sintéticos a priori, o imperativo categórico e outras de suas grandes descobertas filosóficas?

Ainda na senda da filosofia, apesar dos pensamentos distintos entre o plácido filósofo de Könninsberg e o possesso pensador do eterno-retorno, Friedrich Nietzsche, existe um ponto de encontro: o caminhar. Ambos cultivavam esse saudável hábito, mas o autor de Assim Falava Zaratustra - talvez pelo seu gênio impetuoso – fazia andanças bem mais intensas que as kantianas. Durante sua vida nômade, que lhe valeu a alcunha de “filósofo errante”, independente dos lugares onde se fixava, Nietzsche percorria diariamente longas distâncias por cerca de 6 a 8 horas e depois se entregava a uma escrita incessante na qual colocava as ideias surgidas nesse processo.

Não deve ser por acaso que seus textos são repletos de alusões a locomoção, a paisagens e a fenômenos climáticos. A consolidação máxima de seu processo de pensar-caminhar fica clara em seu mais célebre livro, que narra a trajetória de um homem que, aos trinta anos, deixa sua casa e isola-se nas montanhas por 10 anos. Após esse período, desce de lá e busca disseminar suas ideias pelo mundo afora. As quatro partes em que o livro é dividido foram escritas em diferentes lugares e épocas. Foi caminhando que as ideias para escrever Zaratustra brotaram em Nietzsche.

Para ele, andar era imprescindível para pensar. Tanto assim que no livro A Gaia Ciênciaencontra-se o aforismo: "Não escrevo apenas com a mão: o pé também quer sempre participar". Veredas literárias Uma trilha que por vezes se cruza e por vezes se afasta da filosofia é a literatura. O caminhar nela também se faz bastante presente.Em seu livro de estreia, O diário de um mago, o escritor Paulo Coelho relata sua experiência ao trilhar o Caminho de Santiago de Compostela.

No texto, o mago descreve a importância de realizar tal jornada: “A viagem, que antes era uma tortura porque você queria apenas chegar, agora começa a transformar-se em prazer, no prazer da busca e da aventura. Com isto você está alimentando uma coisa muito importante, que são seus sonhos”. Apesar de tal caminho já ser rota de peregrinação desde o século IX, o livro fez tanto sucesso que o trajeto popularizou-se ainda mais e hoje milhares de pessoas se mandam para a Península Ibérica a fim de trilhá-lo. Os motivos da peregrinação podem ser de natureza religiosa, mística, pessoal ou simplesmente para buscar emoções.

Outro famoso caminhante da literatura é Sidarta, de Herman Hesse. O príncipe de Sakyas, após largar todos os bens materiais de que era provido no palácio de seu pai e sair caminhando pelo Oriente, passa por diversas provações até que obtém a redenção, liberta-se de todos desejos e torna-se Buda. Na contramão desse caminho, desejando sobretudo o encontro com o Diabo, está o desbravador das tortuosas trilhas das Gerais, Riobaldo, protagonista da obra-prima de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. Todo o livro acontece no caminhar, nas andanças, no encontro e desencontro dos rumos.

É quando o professor Riobaldo se larga pelas veredas do sertão. Na travessia, descobre a paixão proibida por Diadorim, o amor por Otacília e a jagunçagem. Até de nome muda: Tatarana, devido à boa pontaria, e depois vira Urutu-Branco quando se torna líder do bando. Mas a dúvida crucial do romance permanece: vendeu ou não sua alma ao demo? E pergunta ao seu compadre: “O senhor acha que a minha alma eu vendi, pactário?!.” Ele mesmo responde: “O Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.”

 A caminho do mar...

Outro conhecido adepto de caminhadas é o muso sexagenário, Chico Buarque de Holanda, que usa o trajeto do final do Leblon até o Arpoador como fonte de inspiração para suas composições, livros e reflexão, pois, como ele mesmo declarou em entrevista: “eu também só sei pensar andando. Se você ficar parado, não consegue pensar. Andar eu recomendo para tudo.

Se você tem qualquer problema, dê uma caminhada – porque ajuda, inclusive, a ter ideias. Se a música ficou emperrada ou se a ideia para um livro não vem, a melhor coisa a fazer é dar uma bela caminhada. Fiquei três meses preso na cama. Eu não conseguia ter ideias. Só sonhava que andava. Foram três meses perdidos pela imobilidade”. E completa: “Associo o ato de andar ao ato de pensar, criar e compor”.

Fonte: Mariana Cruz (Blog Educação Pública)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

CAMINHAR TAMBÉM É HISTÓRIA

Resumo do trabalho que apresentarei no IV Simpósio de Ipu em julho de 2012. Pesquisa em processo de amadurecimento para o mestrado em História Cultural.

 CAMINHAR TAMBÉM É HISTÓRIA: ANDANÇAS, MEMÓRIAS E REPRESENTAÇÕES NO USO DO ESPAÇO URBANO EM IPU (1920-1940)


Foto: Acervo fotográfico do Prof.: Francisco De Assis Martins

Por Francisco Petrônio Peres Lima 

Pensar a História por meio da prática do simples hábito de caminhar é uma forma de perceber os espaços reais e simbólicos nas experiências e memórias dos sujeitos sociais em seu tempo. As ruas e calçadas, produzidas em mapas e planos urbanísticos também evocam um passado histórico nas representações do uso do espaço.

Quem não se lembra de algum velho casarão ou sobrado ao andar a pé pelas ruas da cidade ou então das primeiras brincadeiras e namoros nas praças e calçadas. Muito embora, “a forma mais humana de deslocamento do homem” esteja perdendo o espaço para a grande quantidade de veículos automotores, ainda é possível retomar os “lugares perdidos” por meio das memórias e representações dos passeios públicos.

Em nossa pesquisa propomos analisar as lembranças, práticas e representações do “caminhar urbano” no uso dos espaços públicos em Ipu entre os anos de 1920 a 1940 e de que forma o caminhar nas avenidas e praças tentava construir um desejo por uma cidade dita moderna. Ou seja, o hábito de caminhar pela cidade em Ipu não era apenas visto como uma forma “rústica” de movimentação do homem simples, mas também uma prática recorrente pela dita melhor sociedade na idealização dos lugares “xiques” e “elegantes”.

 O “ser moderno”, pertencente a “escol social” era poder andar livremente nos passeios públicos, praças e avenidas. A construção do jardim Iracema em 1927, localizado numa área nobre, pode assim ser definido como uma tentativa em querer copiar o modelo urbanístico das “cidades jardins” dos grandes centros metropolitanos. Dessa forma o caminhar nas avenidas representava, portanto uma separação entre os espaços dos “ricos” e dos “pobres” na pequena “urb sertaneja”.

O passeio a pé nestes locais se diferenciava da forma comum do dia a dia dos andarilhos ou pessoas que circulavam outros lugares, becos e ruas de Ipu, mas ao mesmo tempo mostrava-se como um encontro de socialização e contato maior com natureza urbana. Desta maneira recorremos às fontes orais e escritas para uma melhor análise e reconstituições das lembranças e memórias do caminhante urbano ipuense das décadas de 1920 e 1940. Suas experiências sociais e cotidianas nas andanças e vivencias nos espaços da cidade.

O que não deixa de ser uma reflexão atual sobre a necessidade de rever novos valores, novos paradigmas da importância da caminhada urbana como algo histórico e saudável. Uma maneira prática de se locomover na cidade de forma sustentável, cultural e prazerosa.

UM BREVE HISTÓRICO SOBRE O CAMINHAR NO SÉCULO XX

 Desde tempos mais remotos andar a pé sempre foi a forma mais humana de deslocamento do homem. Com a chamada Revolução Industrial os surgimentos do automóvel assim como as praças iluminadas e elegantes de Paris destacam-se como um referencial da chegada do progresso. Na segunda metade do século XX as separações entre veículos e pedestres passam a incorporar nos projetos de reurbanização das principais cidades brasileiras nas novas formas de moralização dos espaços.

Andar nas ruas e praças ganha novos significados e valores na memória urbana, desta forma as “elites” passam a construir novos lugares de sociabilidade nos locais de movimentação e lazer. O hábito francês do caminhar nas avenidas se incorpora na idealização da cidade moderna, das calçadas e bulevares, contrastando com a realidade social e cotidiana dos becos e cortiços. Daí a necessidade em alargar as ruas, afastar os “pobres” do centro, criar novas praças e avenidas em nome do progresso capitalista.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

"O POVO AUMENTA MAS NÃO INVENTA": NARRADORES DE JAVÉ


Em muitas de minhas andanças(Trekking)pela serra e sertão de Ipu e região costumo fotografar e anotar as memórias e histórias mais interessantes dos lugarejos. Contos e lendas dos tempo da escravidão, Lobissomens, "botijas amaldiçoadas"e tudo mais. É comum o praticante de Trekking está muito próximo das narrativas dos homens anônimos das estradas e lugarejos. Ainda mais eu que sou um historiador e apreciador dos locais simples de minhas terra. Daí então o Trekking ter se encaixado como uma ferramenta a mais em minhas pesquisas.

No filme chamado "Narradores de Javé" há uma rápida passagem de um destes típicos locais que encontramos estrada a fora. Inicia-se com um jovem e seu mochilão correndo para pegar o último barco. Não conseguindo, o mesmo resolve se dirigir a um pequeno boteco em busca de abrigo. E neste mesmo local fica a observar e ouvir as narrativas e memórias daquelas simples pessoas de um povoado antes conhecido como Javé. É aqui onde quero chegar,ou seja, falar de um dos filmes brasileiros mais interessantes que assisti e que costumo passar para meus alunos do ensino Médio e Faculdade.

NARRADORES DE JAVÉ : o filme

NARRADORES DE JAVÉ, produzido no Brasil, por Bananeiras Filmes, em 2003; escrito e dirigido pela brasileira Eliane Caffé. Os críticos de cinema o descrevem como uma comédia dramática, baseada em fatos jornalísticos. Tendo como principais atores: José Dumont, atuando como Antônio Biá, o escrevedor das memoriais orais do povo. Nelson Xavier, como Zaqueu,um dos lideres da comunidade de e narrador da história de Javé anos após o “acontecido”. O filme conta com muitos outros personagens, destaco estes, pois a análise que farei estará centrada, basicamente nestes dois personagens: Antonio Biá e Zaqueu.

O filme inicia com Zaqueu, narrando a história da cidade de Javé , anos depois desta ser inundada pela represa. A história que Zaqueu conta aconteceu no sertão da Bahia, estando a comunidade de Javé ameaçada por uma inundação da hidrelétrica, construída na região. Para tentar impedir está tragédia, os moradores do povoado resolveram escrever sua história e tentar transformá-la em patrimônio histórico, a ser preservado. Essa história tinha que ser escrita através de um documento científico: um dossiê. Mas quem poderia escrevê-la? O único adulto da comunidade, alfabetizado e bom nas “escrituras” era Antônio Biá (José Dumont).

Foi ele o escolhido para escrever este documento “científico”, embora a comunidade de Javé, não confiasse nele. O povo o chamava de “sacanajeiro, enganadô”. Porque as pessoas de Javé o chamavam assim? Zaqueu conta, que no passado ele, o Biá usou do poder da escrita para enganar as pessoas. Ele era funcionário do único Posto de correios da cidade. Por ser uma comunidade não-alfabetizada, o correio passou a ser um local, quase sem função social, as pessoas não utilizavam a tecnologia da escrita no seu cotidiano. Antônio Biá, percebe a ameaça de ficar sem seu emprego, pois o correio estava para ser fechado, pela ausência de uso da escrita.

Então, ele cria a estratégia para não perdê-lo. Passa a escrever cartas para outras localidades, em nome das pessoas do Vale de Javé.. Fofocas eram o conteúdo das cartas, como bem relata Zaqueu:“Ele aumentava os fatos acontecido, com malícia e difamando. Mas tudo era feito com graça e sapiência do ofício de escrever”. Ao ser descoberta sua farsa, foi expulso do centro deste vilarejo. Mas a mesma comunidade que o expulsou, a tempos atrás, naquele momento, precisava de “seus serviços”. Zaqueu ,afirma que ele teria que escrever o documento cientifico de Javé, pois ele é tido com um bom escritor: “Se Antônio Biá escreve mentira, escreve muito bem!!! E para fazê um dossiê, tem que fazê uma juntada de escrita das coisas que aconteceram por aqui...Ouvindo a nossa gente contando pela boca, a história verdadeira, a científica.”

Depois dessas declarações, Antônio Biá foi obrigado a aceitar o cargo de escrevedor. O povo passa, a contar, narrar as memórias orais, na esperança de salvá-los da moderna tecnologia, a hidrelétrica, que fará o povoado desaparecer nas águas.

O escrevedor de memórias já estava contratado, urgentemente, ele precisava ouvir os relatos das memórias, das histórias orais feitas pelos narradores de Javé, isto é, os moradores e as moradoras deste Vale. Nesta fase, do filme Biá passa visitar as casas dos moradores e pedir-lhes que conte os fatos acontecidos: “Conte as lembranças Javélicas, históricas e pré-históricas para gente por no livro a odisséia do Vale de Javé”, falava o sacanajeiro!

Javé e seu povo. Eles e elas, moços e moças, crianças, velhos, velhas, mulheres e homens, negros e negras, em sua maioria; poucos brancos e muitos mestiços, todos nordestinos; se diziam esperançosos/as ao narrarem as memórias de sua Javé. Histórias contadas de várias versões, enredos, e cenários; desde guerreiros e guerreiras, heroínas e heróis, mendigos homens sofredores de “dor de corno”. Tinha até quem dissesse que os “Javélicos e Javélicas” vieram da África. Apesar desta variedade de fatos e de versões, o fundador da cidade, o Javélico Indalécio e Mariadina, sempre apareciam nas prosas das autonarrativas do Vale.

A história da vida deste povoado é a história das narrativas que ouviram, viram, e quase nada escreveram. A cada narrador uma outra história. A mesma Javé tinha sentidos diferentes, tanto para aquele que contava, quanto para aqueles/as que ouviam. Produzindo assim, multiplicidade de histórias e diferentes efeitos de sentidos. Somos, constituídos e atravessados pelas nossas histórias e pelo que narramos delas. LARROSA (1996), diz que a auto-narrativa é um dos lugares que a pessoa ocupa provisoriamente para si mesmo, com a presença de sua própria voz.
Como já referi anteriormente, Antônio Biá, passa a ser o escrevedor das memórias do povoado, o único adulto alfabetizado da comunidade. E Antônio Biá passa a ter o papel de transpor para o papel as falas do Vale de Javé.

Do resumo de Sônia Regina da Luz Matos ( Narradores de Javé: o filme)
Professora da Universidade de Caxias do Sul- RS Centro de Filosofia e Educação

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

POESIA TREKKING: O "EU" CAMINHANTE


Foto: Petrus Trekking (Estrada que leva a trilha do Regalo em Ipu)

O “eu” caminhante...

Às vezes tenho vontade de sumir
De percorrer caminhos inóspitos...
Assim,poder sentir o brilho do sol mais intenso

Olhar o azul do céu por sobre as montanhas
Deixar o vento secar minhas lágrimas
E varrer da lembrança os sonhos perdidos

Às vezes tenho vontade de gritar bem alto
Dizer a todos o que vi na estrada
O que sinto ao tocar o chão...

Não quero falar somente das pedras
Das noites frias em silêncio
Das ilusões dos homens em prece
Insinuosas trilhas do destino...

Não, eu vou seguir sozinho
A luz que traz o eu caminhante
Andarilho de mim mesmo...

Quero aprender com o mundo
O que não me ensinaram
Sentir meus próprios passos
Olhar adiante e seguir sorrindo.

22/01/2011
Petrônio Lima (Petrus Trekking)